As más notícias têm o pé grande e como tal chegam sempre depressa a todo o lado.
Ontem estava a ver a televisão quando de repente apareceu no rodapé a legenda a dizer que tinhas partido!
O teu coração, um coração do tamanho do Mundo voltou a atraiçoar-te e, desta vez definitivamente meu amigo!
Como eu tenho pena de teres partido tão cedo, quando ainda tinhas tanta alegria e simpatia para dar.
Morreste a fazer a segunda coisa que mais gostavas. A treinar uma equipa de basquetebol!
A coisa que mais gostavas de fazer, claro, era jogar esse mesmo basquetebol, coisa que chegaste a fazer a um nível espectacular.
Ainda me lembro do longínquo ano de 1980 quando chegaste da América! Foste contratado pelo "Manel Canhoto", por catálogo, e a ganhares se não me engano 200 dólares por mês.
Naquela altura tal como hoje tinhamos pouco dinheiro e tivemos que ir ao mais barato!
Chegaste Mike, se a memória não me atraiçoa a uma quinta feira e, logo no sábado seguinte, fomos apresentar-te à "nata da sociedade" de Lisboa.
O Pica, homem experiente, organizou o "evento" e lembro-me de termos ido contigo, eu, o Pica, o Chico Gordo, o Ramalho das Batatas, o Zé João Maluco, os Gémeos e mais cinco ou seis dos teus fiéis, aquelees que viam o jogo empoleirados no "terceiro anel", que era o palco por trás da tabela do lado dos balneários. Só aquele palco já nos dava seis ou sete pontos de avanço nos jogos em casa! Tu fazias o resto claro!
Na semana a seguir à tua chegada ficaste doente. O doutor deu-te uma quantidade de penincilina que dava para curar um regimento, mas nunca ficámos a saber se o que te fez mal foram as imperiais ou os tremoços, que bebeste e comeste na Portugália da Almirante Reis! Do bife não foi, pois a carne era de primeira qualidade!
Sabes Mike, de início ficamos um bocado desconfiados com a categoria do teu basquete! O Porto já tinha tido o Dale Dover, nós já tinhamos tido o Killium, a Académica já tinha tido o Stanford. Estávamos habituados a basquete de qualidade e quando nos primeiros treinos te vimos falhar de dentro do garrafão ficámos angustiados. Mais uma carapuça pensámos!
Mas não amigo! Trabalhaste como ninguém, evoluiste, e o teu basquete altamente físico tornou-te uma lenda viva em Portugal. Até dava pena ver homens com mais de dois metros e dez a chorar que nem meninos, pois contigo a marcá-los nem conseguiam tocar na bola, quanto mais marcarem pontos.
Foi com um prazer enorme que nos baldámos às aulas para te ver treinar e, claro para te ensinar em português, as palavras que qualquer basquetebolista necessitava para sobreviver em campo e no balneário.
Ainda me lembro da cara que o Manel Canhoto fez, quando estavam a treinar uma jogada táctica para que tu encestasses e sofresses falta, para marcarmos três pontos. Tinha pelo menos três bloqueios! Como se tu precisasses de bloqueios para encestar e sofrer falta. Então pela primeira o pessoal ouviu-te dizer naquele português que nos dava um gozo do caraças escutar: "deixa-te de tangas Manel, o basquete é um jogo para meninos"!!!
Também gostavamos da tua simpatia e do teu fair-play. Nunca vi um desportista assim! A perder ou a ganhar eras a imagem da honra e da dignidade e saías de campo sempre com o dever cumprido e a camisola ensopada de suor. Merecias cada tostão que ganhavas.
Viveste em Portugal quase trinta anos. Constituiste família e amealhaste dezenas de amigos!
Ontem, sem aviso prévio, infelizmente partiste!
Desde ontem, no céu, a estrela mais brilhante já não é a Estrela Polar, é de certeza a Estrela Mike Plowden, a estrela que nos indica para que lado está a amizade, a camaradagem, a simpatia e a alegria de viver!
No sítio para onde foste tenho a certeza que já tinhas o Pica à tua espera, com uma Mikasa novinha em folha e com uma tabela já armada à beira da praia! Ele apanha Sol, tu jogas basquete!
Mike desta vez convence lá o homem que por mais Sol que apanhe nunca há-de ter a tua cor!
Até sempre amigo tenho a certeza absoluta que o pessoal nunca te esquecerá!








